quarta-feira, 28 de maio de 2008

Frase do Dia:
Antes eu não acreditava em Relações Políticas. Hoje não acredito em ideologias!

segunda-feira, 19 de maio de 2008

A casa era grande para uma mulher só. Durante toda vida ela se castrou. Cuidou dos pais até suas respectivas mortes. Não tinha animais, namoros, pênis, amigos. Tinha os órgãos atrofiados. Nunca criou nada. Cultivava a horta deixada por seu pai no fundo da casa. Não tinha vida. Foi à horta como em qualquer dia. Esta plantação era toda organizada e cercada por madeiras branca. Foi, pegou as verduras e após atravessar a cerca ouviu o som de asas batendo. A velha olhou pra trás e viu um corvo posado na madeira. Corvo que olhava com seus olhos negros e densos para dentro dos olhos da mulher. Nesse exato momento ela sabia que não pisaria mais na horta. Nunca mais.
Todos os dias, a casa era toda aberta. Todas as portas e janelas. Buscando ventilação. Buscava uma vida comum a velha.
Em outro dia qualquer, o vento anunciava a chuva. O cheiro de terra molhada levou-a a recolher as roupas do varal. O corvo não estava mais na cerca. Indo ao ultimo quarto levar as roupas, encontrou na cabeceira da cama de seus pais, a ave. Veio a chuva e a janela desse quarto não foi mais fechada.
Mesmo suas comidas eram insossas, mornas,. Seu fogo cozinhava, mas não ardia. Tinha brasa e não chamas. Agora não indo mais à horta, pouco restava. Só comia os industrializados, os prontos, os frios.
A ave trouxe um algo novo e inédito, um sentimento. Sua casa agora tinha mais um dono.
A água da chuva que vinha do quarto invadiu a cozinha. A velha sabia que era hora de ir. Pegou alguns alimentos e foi para seu quarto. Quando pôs o pé para fora da cozinha ouvia mais uma vez o som das asas, mas não olhou. Já o esperava.
Deitada em sua cama com a o único sentimento da sua vida, trazido pelo corvo, navegando dentro se si, resolve ir até a lareira. Não era acesa desde a morte de seu pai. No sofá está o corvo, como ela já esperava. Com espantosa prática acende a lareira e com os olhos fechado atira-se nas chamas. Dentro do fogo, viu os olhos do corvo em um dialogo inenarrável.