domingo, 17 de abril de 2011

Só havia o silêncio.
Só havia as árvores e mais silêncio. E era lá que Marina de refugiava de seus sentimentos. Sentada ao pé da árvore. Observando o nada e não pensando em nada. Só estava lá. Sentindo que não sentia mais seu corpo. Observando suas pernas como se não fossem mais suas. Lhe eram estranhas. Seu pés, seus dedos. Não era dela. Senta os insetos que nelas pousavam. Sentia as picadas. Mas não se mexia.

Seu corpo estava lá, em completo repouso. Até sua respiração era sutil. Quase que inexistente. Não era mais Marina que estava lá. Marina não se discriminava daquela terra, daquele lugar. Sentia parte daquela árvore, sentia um desdobramento de todo daquele lugar.

Voltou ao seu corpo com pequenos movimentos. Sentindo cada um desses movimentos com extrema intensidade. Como se fosse a primeira vez que reconhecia aquele corpo.

Sua mão tocou a terra. Sentiu o calor que saia de lá quando entrava cada vez mais a mão no solo. Começou a cavocar. Cada vez mais. Com as unhas. Com mais intensidade. Entrando. Rasgando. Violando aquilo que era seu. Havia sangue em suas mãos, mas não sabia de onde vinha. Não conseguia parar.

Queria entrar naquela terra. Queria finalmente se encontrar imersa naquilo que era seu. Encheu suas mãos com aquele barro misturado com sangue e esfregou em seu rosto. Seu peito pulsava. Respirava com a boca, sentindo o calor daquela terra em sua língua. Pegou um punhado daquela mistura e encheu sua boca. Fechou os olhos e sentiu sua língua passeando por aquela mistura. Mastigou e sentiu os pedregulhos riscando seus dentes. Passou as mãos na testa, pondo seus cabelos para trás. Esticou seu pescoço e engoliu parte daquilo que também era parte sua.

Ficou estática. Seu corpo reagia com o que estava em seu estômago. Não poderia só ela ficar com algo de fora. Queria de entregar também. E seu corpo já sentia que isso era necessário.

Com um urro profundo, sentiu seu corpo se esticando para todos os lados e seu estômago jogando pra fora uma mistura além do barro e do sangue que Marina tinha ingerido.

Só restava a Marina juntar tudo aquilo que jazia no pé da árvore e enterrar naquela mesma vala que havia aberto com suas unhas. Era lá que aquela mistura deveria ficar. Era lá que Marina havia se encontrado.

Marina se levantou. Sorriu. Olhou para suas mãos e imaginou seu rosto. Deu uma risada de satisfação e alegria. Fechou os olhos e se abraçou.

Fez uma reverância aquele local antes de sair. Seguiu em direção a casa de sua avó. Com um sorriso em seus lábios sujos mostrando seus dentes sujos.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

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