segunda-feira, 19 de maio de 2008

A casa era grande para uma mulher só. Durante toda vida ela se castrou. Cuidou dos pais até suas respectivas mortes. Não tinha animais, namoros, pênis, amigos. Tinha os órgãos atrofiados. Nunca criou nada. Cultivava a horta deixada por seu pai no fundo da casa. Não tinha vida. Foi à horta como em qualquer dia. Esta plantação era toda organizada e cercada por madeiras branca. Foi, pegou as verduras e após atravessar a cerca ouviu o som de asas batendo. A velha olhou pra trás e viu um corvo posado na madeira. Corvo que olhava com seus olhos negros e densos para dentro dos olhos da mulher. Nesse exato momento ela sabia que não pisaria mais na horta. Nunca mais.
Todos os dias, a casa era toda aberta. Todas as portas e janelas. Buscando ventilação. Buscava uma vida comum a velha.
Em outro dia qualquer, o vento anunciava a chuva. O cheiro de terra molhada levou-a a recolher as roupas do varal. O corvo não estava mais na cerca. Indo ao ultimo quarto levar as roupas, encontrou na cabeceira da cama de seus pais, a ave. Veio a chuva e a janela desse quarto não foi mais fechada.
Mesmo suas comidas eram insossas, mornas,. Seu fogo cozinhava, mas não ardia. Tinha brasa e não chamas. Agora não indo mais à horta, pouco restava. Só comia os industrializados, os prontos, os frios.
A ave trouxe um algo novo e inédito, um sentimento. Sua casa agora tinha mais um dono.
A água da chuva que vinha do quarto invadiu a cozinha. A velha sabia que era hora de ir. Pegou alguns alimentos e foi para seu quarto. Quando pôs o pé para fora da cozinha ouvia mais uma vez o som das asas, mas não olhou. Já o esperava.
Deitada em sua cama com a o único sentimento da sua vida, trazido pelo corvo, navegando dentro se si, resolve ir até a lareira. Não era acesa desde a morte de seu pai. No sofá está o corvo, como ela já esperava. Com espantosa prática acende a lareira e com os olhos fechado atira-se nas chamas. Dentro do fogo, viu os olhos do corvo em um dialogo inenarrável.

3 comentários:

Anônimo disse...

Brunão, adorei esse seu texto!
É sombrio, como a insanidade... e tem um tom sarcástico, como aquelas piadinhas de mal gosto sobre a morte! Por isso que é ótimo, diabólico... e o melhor é que é simples, não tem aquela pretensão chata de muitos textos horror gótico que a gente vê por aí... hehehehehehehe!
Bruno, vc não é um artistinha, cara! E isso já é mto!

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Ariel Tonglet disse...

Muito esse e o do anão podem entrar na coisa do "tudo-do-mesmo-jeito-até-que-um-dia..." Eles dois têm uma ligação estranhinha.
A idéia é fantástica, e concordo com o que a thaís escreveu ^^
Corrigindo o que escrevi pro texto anterior, você muito escreve a coisa toda pra cena, ou melhor, pra frase final, né?
A última desse é muito foda. E nos dois, a última cena é o que mais fica.