
Era dia de festa na casa de Alaor, estava completando 17 anos. Havia convidado toda a cidade, só não chamou o dono do mercado, porque seu pai era dentista:
-Por que, pai?
-Ele não vende farinha de trigo nem paçoca! Não gosto dele.
Não discutiu com seu pai, pois sabia que a cidade era antiga. Decidiu então comemorar. A festa foi num hospital, pois era um lugar neutro.
Sua namorada chegou atrasada na festa. Era um cocota que não acreditava que o homem pisou na Lua. Tinha guaraná e brigadeiro, mas Alaor estava infeliz. Encheu sua mochila de canetas e figurinhas e fugiu no meio da festa.
-Eu já volto, vou até a vídeo-locadora.
-Não esqueça de trazer o papagaio!
E foi para a estrada. Pegou carona num caminhão de galinhas. Foi até uma zona, onde conheceu um garçom que cantava em um cemitério.
-Como assim? Você canta em velórios?
-Não. No cemitério mesmo. Para os túmulos.
-O que você canta?
- Caubi Peixoto, Rollings Stones e Abba, mas eu gosto mesmo de Roberto Carlos.
Passou uma semana lá. Logo viu que lá não era lugar pra ele: não gostavam de Banco Imobiliário.
Alaor roubou uma mobilete e saiu na estrada em busca de um movimento retilíneo. Parou em um posto de gasolina e tentou comprar cerveja, mas já não tinha fôlego. Comprou uma pá.
Chegou em um pedágio. Passou três dias observando o vai-e-vem de carros enquanto cantava uma música de festa junina. No terceiro dia viu passar um ônibus da Viação Cometa e resolveu ir embora. Pegou a pá e enterrou a mobilete.
Chegou em um deserto no qual passava a estrada em que estava. Encontrou chorando na estrada um matador de aluguel que teve que sacrificar seu gato.
-Mas por que você fez isso?
-Porque eu queria jogar basquete
-E por que não comprou amendoim?
-Chega!
Alaor já estava com o saco cheio de sua mobilete, então pegou a pá e a enterrou. Achou um ioiô no fundo da mochila e vendo que jogar ioiô dá futuro, jogou o brinquedo no meio da estrada, e saiu correndo com assombro de um cacto. Notou que correr de nada servia então deu varias cambalhotas até vomitar. Ao ver o vômito lembrou do Mickey e sentiu sono. Sentou e observou as nuvens.
Depois de três horas pegou carona na Kombi de um tintureiro japonês.
-O que o senhor faz no meio do deserto?
-Lavo loupas, sou dono de uma tintulalia.
-Mas pra quem o senhor lava as roupas?
-Pala os meus flegueses.
-Ah, tá! O senhor tem jujubas?
-Sim, na caixa de felamentas.
Desceu em uma estação ferroviária. Tomou uma garapa e o trem pra casa. No trem conheceu uma garota com envelhecimento precoce que cantava a nona de Beethoven.
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