quinta-feira, 17 de junho de 2010

"É... Não queria constatar isso... Mas sua falta me faz bem" E desligou o telefone. Olhou pela janela de seu quarto a nuvem de insetos em volta da lâmpada avermelhada na ponta da vara de metal na ponta do poste de concreto.
Queria chorar. Pra se sentir menos mal. Pra fingir que sentia alguma coisa pelo ponto final de toda aquela história. Mas só sentiu alívio.
Tudo tem começo, meio e fim. E verbalizar foi o fim. Mas não só isso: Falar foi o grande ponto de virada. Quando finalmente o protagonista toma conta da narrativa. Quando a ação dele é que importa.
Era hora de agir.
E o melhor, sem o peso de ter que levar outras pessoas consigo. Quem realmente importava foi avisado. Quem realmente entendeu, olhou em seus olhos e disse: "Vá, faça o necessário, e depois, se puder volte".
Mas o que são 100 anos para quem ama de verdade?
Para se alcançar a pureza é necessário se sujar. Sujar suas roupas, sujar embaixo da unha. Sentir a sujeira se tornar parte de você. Sentir que você nunca mais voltará como foi. E não se preocupar com isso. O importante é a viagem, e não o destino. O importante é o processo, não só o resultado.
Os insetos continuavam voando. A cidade continuava viva. A música do vizinho continuava incomodando. Mas isso agora eram só detalhes. Coadjuvantes. O filme começava agora. Agora Ulisses sai rumo a Tróia. Agora Muhammad Ali levanta de sua maca, veste seu roupão e segue rumo ao ringue. Agora Jesus desce aos infernos. Agora Sidarta entra em reclusão. É o ultimo suspiro de paz. Antes da entrega à guerra.
Sensação de vazio e auto-preenchimento.
Nada importa, só você.
Nada vai estragar esse momento. Muito menos alguém.
E assim suspirou o vazio pela primeira vez. E talvez última. Pelo menos por um bom tempo.

Um comentário:

Alessandra disse...

Sensacional!
Três letras pra você:
Aiaiaiuiui.
Amo te irmão!
Bjo!