Gustavo tinha chegado da viagem. Mesmo ouvindo aquilo da boca da pessoa que ele mais confiava e amava, não conseguia pensar que aquilo era verdade.
Gustavo sabia que seu pai era quem sustentava a esperança na família. Sabia que agora toda a responsabilidade recairia sobre seus ombros e de seu irmão.
Nunca esperou receber essa notícia por seu irmão. Mas sabia que não poderia ser outra pessoa.
Quando o telefone tocou, estava cercado de amigos. Quando desligou o telefone, estava sozinho dentro de si.
Aquele dia passou voando.
Aquela viagem demorou uma eternidade.
Chegou na rodoviária que seu pai sempre o buscava, só que agora, não era o Voyage 86 que o esperava.
Tinha o mundo ao seu lado, esperando para recolher suas lágrimas, mas só precisava encontrar uma pessoa.
Perguntava a seu tio como as coisas estavam indo. Sua mãe, sua avó, seus parentes, sobre quem foi avisado. Mas não perguntava de seu irmão. Só queria vê-lo. Perguntar diretamente a ele. Só choraria de verdade no ombro dele. Só quando seu irmão, alguém que realmente o entenderia, estivesse ao seu lado.
A viagem da rodoviária até o velório municipal foi longa. Longa o suficiente para não ter o que perguntar e ter que pensar. Não sentia mais nada.
Barba por fazer, camiseta barata, e ressaca, da festa que seu Miguel tinha dado de presente de aniversário ao filho. Gustavo não era o modelo de filho que chega ao velório do pai. Mas sua família nunca foi modelo de nada. Eles só se amavam. E isso era suficiente pra eles.
Depois de algumas horas de social, de um velório que a unidade familiar de Gustavo (Sua mãe, seu irmão e ele mesmo) controlou de forma autoritária, por isso mesmo, da forma como o finado Miguel gostaria, Gustavo foi a um supermercado comprar alguma bobagem pra fingir que almoçou.
O mundo é irônico! E Gustavo sabia disso. Mas a único ensinamento que lembrava de seu pai naquele mercado era que deve-se rir de tudo. Na pior das hipóteses, ria! Pelo menos você se diverte sem ter que dar satisfações a ninguém.
Quando admitiu a si mesmo que tudo aquilo era mais uma etapa, que segundo aquilo que acreditava, a morte de seu pai não era nada mais que um acontecimento natural e que, com um apego a sua educação cristã, seu pai estaria ainda presente em seu cotidiano de alguma forma mística, começou a tocar "Marvin" dos Titãs no mercado.
Gustavo sorriu com um canto de boca e disse:
- Migueleza! Seu filho da puta! Você tira sarro até da sua própria morte!
Nenhum comentário:
Postar um comentário